sexta-feira, 27 de novembro de 2009

rasgue seus olhos
na carne do céu
Coffee break

Depois do quente amor que fizemos,
acendemos a asséptica luz do escritório.
Liga-se o ar condicionado.
Então, sentamo-nos frente à frente à mesa de reunião.

Ela cruza as pernas.
Eu as mãos por sobre o vidro dela.
Olhamo-nos.
E tomamos um café.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A Garça e a Galinha

Numa fazenda, a Galinha e a Garça conversam. A Galinha, que vivia triste pelos cantos, desabafou com a Garça:

- Oh! Sra. Garça, você não sabe como eu sofro...
- Por quê? O que aconteceu?
- Não vê? Olha como sou baixinha e gorda!
- Ué! Mas qual é o problema com isso?
- Qual é o problema?! Ninguém gosta de mim. As pessoas só têm olhos para você. Só você é paparicada.
- Deixa disso! Você é muito importante.
- Como importante?! Todos te elogiam. Afinal, é alta e esguia, tem pernas bonitas, anda elegantemente e, além disso, possui um belo voo. Eu sequer posso fazê-lo. Que infelicidade!!! - e com as pequenas asas cobriu os olhos aos prantos.
- Não fique assim. Sou bonita, mas não sirvo pra nada.
- Não?!
- Não. Ser somente bonita é de uma extrema inutilidade. Não põe comida na mesa. a estética não serve para nada. Não mata a fome!
- Não me fale em comida. Era tudo que eu não queria mais ouvir, pois vivem me enchendo de amido. E olha como eu fiquei. Enquanto você aí com uma rica dieta de peixe está maravilhosa.

A Galinha fez uma pausa. Ciscou algum pensamento que lhe escapou - pois não dava grandes voos nesse sentido - e voltou para Garça com toda fúria.
- Olha Sra. Garça, está querendo zombar de mim dizendo que a beleza não é importante?! Te peço ajuda, e ainda vem com ironia?!...
- Claro que não.
- Então é o quê?! Me consola?!
- Também não.
- Vamos! vamos! Diga logo!!!
- Ora, Sra. Galinha, você é o bicho mais importante que existe.
- Como?!
- Sim. É o bicho mais importante que existe! Pois irão cortar sua cabeça; depená-la; sua barriga será cortada, e tirarão todos os seus órgãos. Depois, será esquartejada e, consequentemente, embalarão você para, em seguida, ser comprada no setor de congelados no supermercado que pagou por ti. Assim, será servida como uma deliciosa canja num restaurante, onde uma feliz família de humanos desembolsará algum dinheiro para apreciá-la. Por isso, cuidam de você com tanto carinho, não te deixando faltar nada por aqui. Nem hormônios. Ah! ia me esquecendo: ainda tem a oportunidade de virar garota propaganda de uma grande indústria alimentícia. Isso não é demais?!
- É... você tem razão... Sou muito, muito importante mesmo!

Como já eram seis da tarde se despediram e foram dormir. A galinha ficou muito alegre. Já ansiava pelo dia mais significativo da sua vida...

Moral da história: Mesmo com todos os inconvenientes da nossa vida, a vida sempre serve para alguma coisa.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Correspondência anômala

Sempre em frente à suja igreja
vejo, junto às suas sacolas e trapos,
uma velhinha a tremeluzir traços.
É uma carta. E ao final nunca chega.

É uma carta. Mas não vejo sua letra.
Tento olhá-la, mas a esconde com braços;
corre-lhes, sob finos papéis enrugados,
outra carta - de cor azul-vermelha.

O que trazes, vil caminho de ruga?
Pedes, imploras para Deus salvação e cura?
Num ímpeto, tomo-lhe o manuscrito.

E era assim que, seco, tinha cuspido:
"Maldito poeta, no alheio se disfarça!
Mas se descobrem-te... desfaz-se a farsa."

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Nadyr Gonçalves de Souza

Nossos Tempos

Mãe, quando terminar esta história
passearemos por Paquetá.
Sim, flutuaremos no mar
sereno e calmo de Paquetá.
E deitados na areia
mergulharemos no calmo e sereno céu de lá.
Convidaremos as nuvens para brincar conosco.
Com elas, faremos formas que não se encontram por cá.
Lá, nessa ilha, as nuvens não choram nunca,
e o mar é vivo líquido de ventre a nos ninar.

Ainda há, mãe, uma história...
Uma longa história por se acabar.
Aí, então, iremos a Paquetá.
E os leves dedos da brisa
levemente irão acariciar nossos cabelos;
e toda trama embaraçada neles
suavemente irá se desenrolar.

Mas, mãe, ainda não terminei a minha...
Ainda falta muito para encontrá-la.
Aí, sim, iremos a Paquetá.
Cantaremos Paquetá!
Dançaremos Paquetá!
Amaremos Paquetá!
Contaremos Paquetá!

Juntos, contaremos nossas infinitas histórias.
Inclusive aquelas que me trazias de lá.
As dos teus primeiros beijos,
selos pequenos e comedidos.
E as dos teus primaveris segredos
que arfavam teus seios, em suspiros?
Algumas, tinham que ir pra casa cedo,
se não, vovô brigava contigo.
Outras, levava-as para o travesseiro,
e se via num lindo campo florido.

As histórias são nossas ilhas para sempre!

E depois da ilha, o mar;
e depois do mar, o continente;
e depois do continente, o mundo;
e depois do mundo, um filho:
Ivo, nova ilha a se aventurar.

Mãe, ainda há uma história para contar.
Mas quando terminá-la...
- Ora história que não acaba nunca!
Aí, sim, iremos a Paquetá.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Salve-se quem puder

Pelo visto as coisas não estão somente ruins para os concursandos do ENEM. O jornal O Globo deste domingo publicou duas matérias drásticas em relação à educação em nosso país. Uma refere-se ao salário aviltante dos professores, pois um estudo da Unesco revela que 50% dos professores ganham menos de R$ 750,00, no nordeste - não se espantem - metade ganham menos de R$ 450,00, e a média nacional é de R$ 927,00; a outra saiu na coluna do Elio Gaspari, onde ele diz que 300 professores que receberam bolsas da CNPq e da Capes para estudar no exterior abandonaram o país e não devolveram o dinheiro ao governo. Temos então dois problemas que atingem esferas opostas da educação: a elite, minoria de doutorandos; e a grande massa de professores da educação básica, que abrange 77% do professorado.

Mas esses dois fatos têm apenas um motivo. Este é engendrado pela sociedade em que vivemos nos dias de hoje, uma sociedade extremamente individualista, fragmentada, onde não há mais noção de cooperação e ajuda recíproca. Nesse sentido, o outro é totalmente negligenciado e a noção de país foi extinta completamente. É como se cada um o carregasse, autonomamente, dentro de si. A isso chamamos de neoliberalismo.

Para se ter bons salários é preciso mobilização de classe. Só fortalecendo-a pode-se exigir melhor remuneração. E assim o é com outras categorias, pois conforme dados do Pnad/IBGE de 2006 a média salarial de arquitetos é de R$ 2.018; de biólogos, R$ 1.791; de dentistas, R$ 3.322; de farmacêuticos, R$ 2.212; de enfermeiros, R$ 1.751; de advogados, R$ 2.858; e de jornalistas, R$ 2.389. Esses números são evidentes por si: mostram a total incapacidade de organização política dos professores. Aliás, deve-se, antes disso, ter consciência de que essa categoria é tão ou mais importante do que as outras, pois é com ela que se forma nossos diversos porfissionais. Ora, para se ter bons profissionais é preciso bons professores, e para se ter bons professores é necessário boa formação e níveis dignos de trabalho. Assim, nesse desespero, muitos são obrigados a acumular duas matrículas, ou até mais, para melhorar suas rendas. Isso, porém, acarreta uma enorme sobrecarga neles, além de tirar oportunidades de quem está ingressando no mercado , os recém-formados, pois em geral admite-se somente profissionais já experientes.

Mas esse salve-se quem puder não se vê somente entre a educação básica. Há uma enorme evasão de pesquisadores no Brasil. Isto se deve a falta de incentivo à pesquisa e, como o próprio Gaspari salienta, à "falta de empregos decentes por cá". Com isso perdemos mentes brilhantes que poderiam estar trabalhando em prol do país, gerando assim novas tecnologias e patentes nacionais. Entretanto, como são espertos doutorandos - e isso não é nada fácil - chegaram a simples conclusão: Se o país não faz nada por mim, por que vou fazer alguma coisa por ele? E assim esses bolsistas se mandam esperançosos com suas malas e bolsas cheias, que contabilizam ao todo US$ 60 milhões de dinheiro público.

Conforme observamos, a confusão há muito já está instaurada. Se por um lado o governo não leva à sério a educação, pagando maus salários; por outro, toma calote dos pós-graduandos. A omissão e o empurra-empurra é generalizado. Não se organiza, busca-se mais matrículas, sai-se do país... Talvez o melhor mesmo seja dar aprovação automática, pelo menos todos firariam isentos de responsabilidades - até os alunos. Fora isso, deve-se encarar a educação com mais seriedade, e nos convencermos, definitivamente, de que só com ela se contrói um país digno. Se é que queremos isso? Pois, para muitos, é melhor se exilar em si próprio.

Boas Olimpíadas!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

No beco,
vejo o espelho
e confesso
ao ego do espelho
o segredo
do seu desejo